Espiritualidade,  Psicologia

Superar o silêncio

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Nos últimos anos surgiram grandes escândalos em nosso país envolvendo grupos abusivos. OshoJoão de DeusAlexandre PaciolliReino do SolTales de CarvalhoLaércio de Oliveira, e basta um googlezinho para você encontrar diversos outro casos de abusos em distintas religiões em diferentes partes do mundo. O plot é sempre o mesmo: algum líder religioso ou espiritual se aproveitando da vulnerabilidade de seus fiés para ganhar algum benefício pessoal – seja sucesso, dinheiro, sexo ou poder.

Espiritualidade e religião são amplamente reconhecidos na psicologia como fatores protetivos e de bem-estar para os indivíduos. A transcendência ajuda a dar sentido ao mundo respondendo às grandes questões da vida e trazendo um sentimento de segurança diante da experiência da vida. Ela pode trazer sentimentos de conforto, cura e pertencimento. Inúmeros estudos têm apontado que a espiritualidade traz benefícios para a saúde física e mental. Tanto ela quanto a religiosidade são recursos valiosos utilizados pelas pessoas no enfrentamento de doenças e do sofrimento.

Corruptio optimi pessima é um ditado em latim que significa que um grande bem se converte em um grande mal se se corrompe a si mesmo. A corrupção das melhores coisas as transforma nas piores. Podemos aplicar essa premissa à espiritualidade e religião. Embora sejam fatores positivos na experiência humana, isso não significa que se envolver com um grupo religioso ou espiritual seja sempre benéfico. Apesar de ser um grande tabu falar sobre isso, a verdade é que o contexto espiritual não só não está imune aos abusos como está repleto deles. E as consequências experimentadas pelas vítimas são profundas e devastadoras.

Nenhuma religião está livre de abusos. E nem mesmo os grupos espiritualizados (aqueles que envolvem experiências transcendentes e psicoterapêuticas não necessariamente religiosas). Lamentavelmente há uma ampla variedade de grupos ou líderes que utilizam a fé e boa vontade das pessoas para perpetrarem uma série de abusos psicológicos, físicos, sexuais, financeiros, espirituais, etc.

Engana-se quem pensa que esse é um problema exclusivo da religião ou da espiritualidade. Estamos verdadeiramente diante de uma crise global e humanitária que afeta o tecido social de forma distinta e complexa. Vários tipos de relações e contextos estão padecendo com os abusos justamente pela perda da consciência da dignidade de cada ser humano. Seja nas empresas, nas famílias, nos relacionamentos, na política, ambiente acadêmico e universitário, nos clubes esportivos ou nos espaços religiosos, entre outros, há uma crise evidente no modo de nos relacionarmos. Há uma preponderância no relacionamento baseado no desrespeito, na manipulação, no descarte, na utilização do outro, na exploração, na humilhação, etc.

O contexto religioso acaba sendo um ambiente de ingenuidade onde presume-se que só há pessoas boas e bem-intencionadas. Onde se tem a ilusão que nada de mal pode acontecer, como se houvesse uma imunidade. O fato é que abuso é abuso em qualquer lugar, seja ele físico, sexual ou psicológico. Contudo, assim como o ambiente familiar, o religioso goza de uma grande proteção social. Falar de abusos nesses contextos parece uma ofensa e ainda é um grande tabu. Mas bem, justamente por serem essas zonas cinzas, a prevalência dos acontecimentos se torna maior. Quando fingimos que um problema não existe, abrimos uma brecha para que ele aconteça ainda mais. Quando uma pessoa não sabe do risco, a chance dela se tornar vítima é ainda maior.

Abusos religiosos ou espirituais não são um tipo diferente de abuso, embora suas consequências apresentem particularidades. Significa apenas que são abusos que acontecem em uma dinâmica e contexto específico e por isso precisam de uma atenção diferenciada. Os abusos nesse contexto envolvem abuso sexual ou físico perpetrado contra maiores ou menores de idade e também outros tipos de abusos que são mais sutis e por isso ainda menos palpáveis; esses são os abusos psicológicos, emocionais e afetivos que envolvem manifestações específicas como os abusos de poder, de autoridade, abusos de consciência, abusos financeiros e os espirituais (que são uma vertente dentro dos abusos de consciência).

Ao contrário de outras formas de abuso, como o sexual ou o físico, o abuso espiritual tem sido ignorado, negado ou subestimado por muito tempo. Por isso ainda há muita resistência em ver e aceitar isso como abuso real. Somente nos últimos anos a complexa e triste realidade do abuso espiritual vem gradualmente ganhando maior atenção. Em alguns contextos é chamado de abuso religioso ou abuso de poder espiritual, em outros casos também tem sido visto como uma forma de violência psicológica em um contexto religioso ou espiritual ou como sinônimo de abuso de consciência. Portanto, estamos lidando com uma realidade concreta, sensível e sutil e ainda não há uma consonância a respeito do melhor termo para nomeá-la.

Uma das definições mais precisas e úteis de abuso espiritual é a oferecida pela estudiosa britânica Lisa Oakley:

O abuso espiritual é uma forma de abuso emocional e psicológico. É caracterizado por um padrão sistemático de comportamento coercitivo e controlador num contexto religioso. O abuso espiritual pode ter um impacto profundamente prejudicial para aqueles que o vivenciam. Este abuso pode incluir: manipulação e exploração, censura na tomada de decisões, exigências de sigilo e silêncio, coerção para se conformar, controle através da utilização de textos ou ensinamentos sagrados, exigências de obediência ao agressor, suposição de que o agressor tem um estatuto “divino”, isolamento como meio de punição, e superioridade e elitismo.

(Escaping the Maze of Spiritual Abuse: Creating Healthy Christian Cultures)

O abuso espiritual ocorre em contextos religiosos ou espirituais, onde poder e confiança são usados ​​para manipular, instrumentalizar, controlar e oprimir outros por meios espirituais e/ou “em nome de Deus”. Para os afetados, isso leva a uma restrição de sua liberdade e crescimento espiritual a ponto de prejudicar sua fé (e/ou seu relacionamento com Deus), sua saúde, seus relacionamentos, etc. A raiz de todo abuso sexual é sempre um abuso de poder.

Algumas pessoas pensam que se não há agressão física ou sexual, então não é algo grave. Mas as evidências demonstram que o abuso psicológico pode ter efeitos tão ou mais graves do que um abuso sexual. O papel da confiança é crucial quando tentamos entender a realidade do abuso espiritual e suas consequências, porque é justamente a confiança que é abusada. Normalmente, a confiança no outro é um pré-requisito para que um caminho de formação, acompanhamento espiritual ou vida comunitária dê frutos, pois somente em tal contexto é possível acessar a intimidade do outro e gerar transformações reais. Nesses casos, a dinâmica do abuso é uma quebra ou distorção da relação de confiança, dentro da qual a pessoa que confia é manipulada e usada para satisfazer as necessidades do outro.

Como consequência, a confiança nos outros e muitas vezes também em Deus, que não interveio nem protegeu dos abusos, é abalada ou destruída quando a situação torna-se clara. Depois, muitas vezes há um segundo momento de quebra de confiança, quando a pessoa revela o abuso e não é acreditada. Pessoas que sofrem abuso espiritual são frequentemente rotuladas como “loucas”, “estranhas” ou “mentirosas”, que querem destruir a reputação dos outros, do grupo, da igreja. São culpabilizadas e silenciadas de forma pungente, sofrendo dessa forma uma revitimização.

Outro elemento central é a questão do poder e seu exercício, um elemento que diz respeito a todos os tipos de instituições, sejam elas eclesiásticas, estatais ou privadas, educacionais ou de formação, de saúde ou políticas. O abuso de poder pode ocorrer em todos os tipos de relacionamentos interpessoais onde há uma relação assimétrica entre uma pessoa e outra.

No contexto religioso ou espiritual existem principalmente dois tipos de poder e autoridade: o poder de governo (relativo às funções de autoridade que se desempenha) e a autoridade moral (que pode ou não estar ligado a uma pessoa em determinado cargo). Pessoas sem posições de liderança podem possuir uma alta autoridade moral por motivos diversos e acabarem utilizando essa assimetria para manipular, oprimir e prejudicar aos demais.

Alguns sintomas que as vítimas de abuso em contexto religioso ou espiritual podem apresentar incluem:

Confusão mental, dificuldade em tomar decisões e pensar por si mesmo, falta de sentido ou direção na vida, baixa autoestima, ansiedade de estar no mundo, ataques de pânico, medo da condenação, depressão, pensamentos suicidas, distúrbios do sono e alimentares, abuso de substâncias, pesadelos, perfeccionismo, desconforto com a sexualidade, imagem corporal negativa, problemas de controle de impulso, dificuldade de desfrutar o prazer ou estar presente aqui e agora, raiva, amargura, traição, culpa, sofrimento e perda, dificuldade em expressar emoções, ruptura da rede familiar e social, solidão, problemas relacionados com a sociedade e questões relacionamento pessoal. Perfeccionismo compulsivo, crise de fé ou desilusão com a espiritualidade; sentimentos constantes de vergonha ou culpa e hipervigilância. Ataques de pânico e uma profunda apatia e desconexão consigo mesmo e com o mundo ao redor também costumam estar presentes. Dificuldade em confiar nos outros; sentimentos generalizados de desesperança, especialmente em combinação com culpa, bem como culpar a si mesmo por todos os aspectos negativos da vida; depressão; comprometimento da identidade pessoal.

Engana-se quem pensa que jamais seria vítima de abuso relacionado a fé. Não há um perfil ideal para uma vítima. Qualquer pessoa pode ser enganada, manipulada e explorada em seu ambiente de espiritualidade. A maioria das vítimas só se dá conta do que passou quando a situação já está insustentável.

As vítimas de abusos nesse contexto acabam se sentindo completamente desamparadas por não saberem dar nome ao que passaram e por não encontrarem algum espaço saudável onde possam relatar sua trágica experiência e receberem ajuda e reparação. E os perpetradores aproveitam da segurança de suas posições para cometerem crimes e saírem ilesos.

Como sociedade ainda guardamos um silêncio incrédulo a respeito desse tema. Não é mais possível se esconder atrás da ignorância ou espiritualizar o fenômeno do abuso, nem argumentar que são sempre fatos periféricos. O silêncio é cúmplice. As vítimas nunca são uma ameaça, mas uma parte essencial da solução.

Os escândalos de abusos envolvendo diferentes religiões são evidentes e cada vez mais comuns. São muitas as vítimas dilaceradas por essas experiências atrozes. Elas ficam feridas de forma profunda e muitas vezes irreparável. Por isso é urgente e necessário trabalharmos em diferentes esferas em prol de uma cultura do cuidado. Falar abertamente sobre abusos em contexto religioso e espiritual sem uma posição defensiva é o primeiro passo.

Terapeuta e Escritora

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