
Ser atento
“De tudo, ao meu amor serei atento”
Assim começa um dos sonetos mais marcantes de Vinicius de Moraes. Através dele desvelamos uma simples e profunda constatação: amar é ser atento. E quem está atento a algo, está desatento a todo o resto. Essa é a brasa da fidelidade e a base neurocientífica do foco.
É interessante que o autor tenha usado o verbo ‘ser’ em vez de ‘estar’, configurando que o exercício atencioso daquele que ama não diz respeito a um mero instante ou a momentos particulares e sim a um hábito, a um jeito de ser. Ser atencioso a quem queremos bem é parte fundamental do funcionamento do amor.
Em uma era de desatenção em massa aonde nos tornamos facilmente seres distraídos e desfocados, ser atento é uma declaração de amor potente e revolucionária. É indiscutível que estamos diante de uma crise da atenção e que o fato de estarmos perdendo o foco mental também influi em nossa capacidade de focar em quê ou em quem é importante em nossas vidas.Estamos constantemente hiper estimulados, bombardeados por distrações. Em uma sociedade apressada e com tantos focos de atenção por minuto, prestar atenção genuína a algo ou a alguém é um ato de respeito e de afeto muito significativo. É através da atenção que nos conectamos de forma verdadeira e profunda com o mundo ao nosso redor.
A atenção é um presente inestimável que podemos oferecer a nós mesmos e aos outros. É um detalhe sutil, mas que pode fazer toda a diferença na qualidade das nossas interações e na profundidade das nossas experiências. Prestar atenção é um dos gestos mais bonitos e gentis que podemos realizar.
Falar sobre ser atento diz respeito a olhar devagar, reparar. Manifestar interesse. Demonstrar a gentileza dos gestos que dizem “estou prestando atenção em você”. Olhar nos olhos, dedicar tempo. Escutar. Querer saber. Conhecer. Ter disponibilidade, dar prioridade. Encontrar um espaço na correria para estar perto. Permanecer.
Compartilhar uma vida é bem mais do que dividir o mesmo ambiente. Em qualquer relacionamento, seja familiar, de amizade ou romântico, um vínculo autêntico só se estabelece através da intimidade e do cuidado. O amor cria raízes através de muitos verbos: dedicar, partilhar, esperar, consertar, ouvir, falar. O amor em suas distintas formas é companheirismo e cumplicidade. Estar ao lado, independente do que vier. Ter interesse desinteressado no outro. Sem esperar uma recompensa imediata, amar por quem o outro é.
Pequenos detalhes demonstram o interesse que temos em alguém. Ouvir o que ele tem a dizer, demonstrar o afeto, querer passar tempo junto, convidar a conhecer nosso mundo interior e tudo o que nos cerca, buscar saber mais sobre a pessoa, criar oportunidades. Procurar de forma ativa esse entrelaçar de vidas. Dedicar tempo.
E o mesmo vale ao revés. Às vezes a gente se mete em cada furada mendigando afeto. Cortando partes de si mesmo para caber em algum espaço. Fazendo um esforço danado enquanto o outro não faz o mínimo. Quem quer a gente na vida precisa fazer por merecer. Não é que sejamos o centro do mundo ou a última bolacha do pacote. Mas é indispensável reconhecer nosso valor e perceber que cada relação é um investimento de energia e de entrega de nós mesmos. Ninguém merece estar com alguém só por estar.
É próprio do amor o interesse, por isso esqueça quem não te procura. Quem nunca tem tempo para você. Quem não se interessa por sua vida. Às vezes aceitamos migalhas de atenção e damos à elas uma proporção enorme vivendo uma baita ilusão. O desinteresse é uma das coisas mais evidentes nos relacionamento e sabemos disso – embora seja difícil de assumir na prática.
Todos já experimentamos na vida a sensação de desejar algo ardentemente. Uma conquista, um ganho, um amor, um objeto. Sabemos portanto o que é estar atento e ter interesse. Sabemos, então, o que é estar apático e desinteressado, pelo motivo que for.
E, bem, vamos levar a vida com mais leveza. A desatenção de alguém não é o fim do mundo. Ninguém é obrigado a gostar da gente e isso não significa que não somos seres amáveis. Se alguém se interessou por outra pessoa, que seja feliz. A liberdade é condição indispensável ao amor. O tempo passa, a vida desliza. Viver é precioso demais para gastarmos com quem não se interessa pela gente. Amar é criar raízes e aprofundar, aprendendo a ser cúmplice e companheiro. Coisa boa na vida é encontrar quem nos ame do jeitinho esquisito que somos.
Por isso, também preste atenção a quem você dedica seu esforço e seu afeto. Se você não nutre interesse por quem você ama – seja Deus, você mesmo, família, amigo ou parceiro romântico – acredite, é hora de rever o seu comportamento. Afinal, amar não se prova na teoria (nem sobrevive apenas dela).
Em uma era de demonstrações simplórias de afeto, como meras curtidas e likes, ouvir Djavan é aprender a poesia de uma demonstração solene:
E todas as horas que o tempo
Tem pra me conceder
São tuas até morrerZigmunt Bauman criou a expressão “amor líquido” para expressar os relacionamentos atuais. Aquele amor descartável que pode ser trocado a qualquer momento. Ele discorre sobre como os relacionamentos e conexões estão cada vez mais frágeis movidos por motivações supérfluas, buscando a satisfação prática e rápida.
“O amor, por outro lado, é a vontade de cuidar e de preservar o objeto cuidado. Um impulso centrífugo, ao contrário do centrípeto desejo. Um impulso de expandir-se, ir além, alcançar o que está lá fora. Ingerir, absorver e assimilar o sujeito no objeto, e não vice-versa, como no caso do desejo. Amar é contribuir para o mundo, cada contribuição sendo o traço vivo do eu que ama. No amor, o eu é, pedaço por pedaço, transplantado para o mundo. O eu que ama se expande doando-se ao objeto amado. ”— Zygmunt Bauman, Amor Líquido.
Relações de qualidade são cheias de bem-querer e demonstrações do quanto o outro importa em nossa vida. No fundo a gente sabe quando não está investindo onde deveria ou aceitando menos do que merece.Relações de qualidade, para mim, são aquelas profundas e íntimas. Duradouras. Fortes e delicadas ao mesmo tempo. Refúgios. Elas correspondem àquela sensação de <<lar>>. Lugar onde somos nós mesmos, onde andamos descalços e nos jogamos no sofá. Reabastecemos a bateria. Onde somos amados por sermos quem somos e não pelo que oferecemos.
Elas funcionam como uma vitamina. Nos reabastecem. Trazem sabor para a nossa vida. Nos sentimos conectados e integrados. Humanos, sem medo de vulnerabilidades expostas. Aprendemos a conviver, a nos relacionarmos. Nelas a nossa doação não encontra peso – embora sempre nos custe vencer a nós mesmos.
Essas relações diferem das superficiais, as quais temos em grande quantidade e fazem parte naturalmente dos nossos dias. As relações de qualidade são construídas sobre outro tipo de terreno: o do cuidado e da dedicação. Por isso, são poucas, raras e deliciosamente preciosas.
É a qualidade dos relacionamentos que importa e não a quantidade. Cultivar laços verdadeiros é uma das formas mais autênticas de felicidade. Amar é a coragem de manter a atenção mesmo quando a vista já está cansada de ter visto o mesmo ao longo dos anos. Amar é coisa que se vive devagar, não combina com pressa. Se sustenta com dedicação e cuidado com os detalhes. Amor é arte que exige esforço. Amar é ser atento.

Terapeuta e Escritora

